Voltei para a cama e fechei os olhos. Mas fiquei meio preocupado, lembro como se fosse hoje. Demorei muito a pegar no sono outra vez, só consegui quando os galos já tinham cantado um monte de vezes e o dia estava começando a clarear.
Com isso fui o último a levantar. Depois do café, fui encontrar o pessoal todo já no pomar, subindo na goiabeira. Examinei as meninas todas com atenção, para ver se descobria quem estava com cara de ter chorado de noite com um jeito tão sentido. Ninguém. Pelo visto, a chorona disfarçava bem.
Mas no fim do dia, tive uma surpresa. Estávamos todos conversando, espalhados pela varanda, uns sentados num banco comprido, outros pelo chão, alguns numas redes, e de repente alguém propôs:
- Vamos dar um susto na Elisa?
Olhei e vi minha amiga ressonando, deitada na rede... Todos se organizaram em volta para acordá-la de repente, com uma sacudidela forte. Foi uma gargalhada só.
[...]
- Estranhou a cama? – perguntou alguém.
- Não... – respondeu ela, meio vaga. – Mas estranhei o ambiente. Uns barulhos diferentes...
- Eu também acordei de noite, Elisa. E também custei muito a pegar no sono de novo.
Pensei em perguntar logo porque ela tinha chorado. Não queria ser indiscreto.
- Então você também viu e ouviu?
- Viu o quê? – perguntei.
- Uma luz deslizando pelo chão... – respondeu ela tão baixinho que mal dava para ouvir.
- Era eu, Elisa, com a lanterna, andando pelo corredor...
- Por que não me chamou?
- Eu não podia imaginar que você estivesse acordada...
- Não dava para dormir com você gemendo e chorando daquele jeito. O que aconteceu? Estava passando mal?
- Mas eu não estava chorando! Também acordei com os gemidos. Até chamei o Léo, mas aí o choro parou e eu não ouvi mais nada.
Mas não conseguimos desvendar o mistério. Pelo menos, não nesse dia. Em pouco tempo, não pensávamos mais nos gemidos da madrugada.
Até que eles voltaram, em outra madrugada. E não voltaram sozinhos.
Fonte: MACHADO, Ana Maria – Do outro mundo. São Paulo: Ática, 2004. p.31-32. (Texto adaptado).
Explique qual era o mistério a que o menino e Elisa se referiam no texto.