O TEMPO INCOMODA
Depois de quase um ano pesquisando sobre vírus, mosquitos e doenças para a série “Epidemia”, lançada
em parceria com a Folha de S. Paulo, nos vimos empacadas com a decisão sobre qual caminho seguir na
temporada seguinte. Como falar de ciência sem tratar diretamente da pandemia? Que outro assunto pode
ser tão relevante neste ano tão estranho de 2020?
[5] Foi então que começamos a falar sobre o tempo. Por um lado, é como se estivéssemos vivendo o mesmo
dia de novo e de novo, as horas e semanas se fundindo numa massa amorfa. Por outro, sentimos que já
passou uma década do início da pandemia para cá.
Essa bagunça de calendários e relógios só fez crescer nossa curiosidade e nosso incômodo, porque pensar
no tempo não é nada confortável. Tente. Qual é a cara do tempo? Quanto tempo você ainda tem? Como
[10] estará o mundo daqui a cem anos? E daqui a mil? Por que o passado às vezes parece tão misterioso quanto
o futuro?
Decidimos mergulhar nesse desconforto ao fazer do tempo o centro da nossa atenção, descobrimos
histórias de cidades, pessoas, animais e ideias que o desafiaram ou foram desafiados por ele. Na ciência,
encontramos grandes perguntas que habitam o território movediço entre o que já sabemos, o que ainda
[15] não sabemos e o que parece ser mesmo indecifrável.
O próprio conceito de tempo passou por revoluções. Até o começo do século 20, a física o tratava como
algo absoluto e uniforme, independentemente de quem o medisse. Albert Einstein, com sua teoria da
relatividade, sacudiu esses pilares ao propor que o tempo poderia passar mais rápido ou mais devagar, a
depender da velocidade de quem o medisse ou de onde esse relógio se encontrasse no universo, já que
[20] ele – na verdade, o espaço-tempo – estaria sujeito a deformações.
Na jornada para entender o tempo, também chegamos às investigações sobre como o percebemos. Para
nós, ele se manifesta como uma linha que nos empurra em direção ao futuro, mas o cérebro humano tem
a incrível capacidade de viajar nessa linha. Sem sair do lugar, visitamos memórias e fazemos projeções
para o futuro. Será que somos os únicos animais com essa capacidade? Até que ponto conseguimos de fato
[25] imaginar o futuro e tomar decisões pensando no amanhã?
Nesta temporada, não saímos de casa munidas de gravadores como normalmente faríamos. Mas fomos
do átomo ao telescópio, dos neurônios ao palco de uma ópera, da serra da Capivara à Noruega, do fóssil
à imortalidade.
Como já esperávamos, em vez de se encerrar com respostas, a viagem chegou ao fim com ainda mais
[30] perguntas. Afinal, estamos falando do tempo. Não dá para esperar dele respostas absolutas. Saímos com
a sensação de que ele é, de certo modo, indecifrável. E esse talvez seja o seu grande charme. Se fosse um
personagem, com certeza debocharia das tentativas da humanidade de entendê-lo.
SARAH AZOUBEL e BIA GUIMARÃES Adaptado de cienciafundamental.blogfolha.uol.com.br, 05/12/2020.
O próprio conceito de tempo passou por revoluções. Até o começo do século 20, a física o tratava como algo absoluto e uniforme, independentemente de quem o medisse. (l. 16-17)
Considerando a sequência de ideias apresentadas no 5º parágrafo, a segunda frase do trecho citado poderia ser introduzida pela seguinte expressão: